Autor: Isabel Xavier

Abstract
A origem do conceito de espaço público situa-se no século XVIII, como corolário do triunfo político do liberalismo e da afirmação social da burguesia. Nessa altura, perde-se a referência externa e transcendental do poder político, passando este a ter um carácter imanente, visto considerar-se que provém do povo, num processo que confere novo significado à dimensão do público e do privado. Espaço público correspondeu à criação de um espaço de participação cívica e política, no qual os cidadãos, organizados em associações e outros grupos de intervenção, através dos jornais e de outros meios de comunicação, dedicados a novas práticas de sociabilidade e ao debate político, tiveram que ser considerados pelos detentores do poder, já que a palavra e a ação que desenvolviam resultavam num escrutínio ao exercício do poder político, dando origem àquilo a que se convencionou chamar opinião pública. Ao mesmo tempo, consolidavam-se novas práticas culturais, como a leitura, a frequência de museus, de cafés, de salões, de concertos, de teatros, tornando-se essas práticas elementos fundamentais de uma sociedade mais instruída e empenhada politicamente. A cultura foi-se autonomizando e a crítica e o debate que suscita, com destaque para as artes, passa a ser elemento central da constituição do espaço público. Assim se diversificaram as esferas públicas num processo que os novos meios de comunicação e as novas tecnologias ampliaram extremamente. Numa sociedade culturalmente massificada como é a sociedade atual, mais significativo se tornou o papel de dissentimento e de suspensão que cabe às artes contemporâneas. Mas nem todos os países e todas as sociedades viveram estes processos com a mesma intensidade nem com o mesmo ritmo. Alguns não os viveram de todo, outros viveramnos de forma mitigada. Terá sido o caso da sociedade portuguesa que desde o século XVIII conheceu uma evolução política e cultural pouco favorável à autonomização da cultura e à criação de condições de participação cívica e política em comunidade. O afastamento relativamente às modernas tendências artísticas, já sentido com a (quase) perpetuação da estética naturalista, acentuou-se com a ditadura vivida ao longo de praticamente metade do século XX, coincidindo com o período (anos sessenta) em que se deram as maiores ruturas em termos das artes contemporâneas, num fenómeno extremamente vigoroso das sociedades europeia e americana a que Portugal permaneceu alheio. A consciência dessa falta quanto às artes contemporâneas torna-se um dos aspetos mais significativos da consciência mais vasta de um atraso cultural do país, que muitos consideravam urgente ultrapassar. Disso nos dão testemunho os depoimentos dos gestores de instituições de artes contemporâneas entrevistados para este trabalho que reivindicam, quase sistematicamente, para as instituições que gerem, o papel de introdutoras das artes contemporâneas em Portugal. A partir da análise e da problematização do conteúdo dessas entrevistas estabelece-se um quadro das práticas culturais das instituições de artes contemporâneas e do respetivo significado, no sentido de obter o mapeamento das práticas de gestão cultural ligadas às artes contemporâneas, no âmbito do espaço público.

Abstract
The concept of public sphere can be traced back to the 18th century as a corollary of the political triumph of liberalism and of the social establishment of the bourgeoisie. At the time the external and transcendental reference of the political power was lost giving place to its conception as something immanent, because it came from the people, through a process that reshaped the public and the private spheres. The public sphere meant the creation of an opportunity for social and civic intervention in which citizens, organized in associations and other intervention groups, through newspapers and other means of communication, devoted to new practices of sociability and to political debate, had to be considered by political authorities because their words and their actions translated a scrutiny to the exercise of political power and were at the base of the creation of what conventionally was called public opinion. Meanwhile new cultural practices, such as reading, going to museums, coffee shops, lounges, concerts and theatres, were consolidated and became key elements in a more literate and politically engaged society. Culture grew more autonomous and both the critique and the debate that it evoked became the main elements in the constitution of the public sphere. Thus the public spheres were diversified in a process that the new media broadly widened. In a society as culturally massified as the current one, the dissent and the suspension that contemporary arts create makes them take on an even more significant role. However, not all countries or all societies lived these processes with the same intensity or the same rhythms. Some did not live them at all; others did in a very light experience. The latter would have been the case of the Portuguese society which has experienced a not so favorable political and cultural evolution towards the autonomy of culture and the creation of opportunities for political and civic intervention as a community since the
18th century. The distance from the modern artistic trends, which was already felt with the persistence of the naturalistic aesthetics, was accentuated by the dictatorship lived throughout almost half of the 20th century which in turn overlapped the period (the 60s) in which the biggest fractures in the area of the contemporary arts occurred through a vigorous phenomenon of the American and European societies which Portugal remained alienated from. The consciousness of that missing period in the contemporary arts becomes one of the most significant aspects of a wider consciousness regarding the cultural underdevelopment of the country, which many see as something urgent to overcome. The managers of the contemporary art institutions who provided their testimony to this work share this view and claim to their institutions the introduction of the contemporary arts in Portugal. From the analysis and questioning of the content of these interviews, one can establish a pattern of the cultural practices of the institutions of contemporary art and their meaning, as to create a map of the management of the cultural practices connected to the contemporary arts in the public sphere.