O espetáculo de abertura da temporada do TNDMII é um Lear escuro, desolado. O que os focos de luz rasgam, esquematizando a geometria dos acontecimentos, é um retrato da vida despido do acessório. A iluminação fragmentária da tragédia.

«Neste espetáculo, a formalidade do movimento (os atores falam de frente, os braços enfaticamente caídos) tende a alhear o espetador da ação. O excesso de esquematismo contamina a expressão das emoções, também porque os corpos, num registo de grande contenção, são embrulhados numa mortalha de negrume. Sente-se o peso da palavra a vergar a dinâmica performativa que qualquer espetáculo de teatro deve exigir a si próprio para que a ligação emocional com o público não se perca. Em suma, sem momentum, Shakespeare assim vertido aproxima-se de uma cuidada leitura encenada, com a diferença dos figurinos de qualidade e de uma produção acima da média. Mas também é verdade que este Lear é eficaz no que sintetiza do génio de Stratford-upon-Avon para o atualizar, sobretudo ao nível da des/reconstrução textual. Perde-se no processo um tanto do sangue e do corpo que, sabemos, Shakespeare não abdicava de colocar nos seus textos e espetáculos. Ganha-se um geometrismo desolado. […] No Lear agora e assim levado ao palco estamos perante um trabalho sobre o negro e o nada. A luz vem da nua arquitetura das palavras e dos focos de luz branca que desenham os atravessamentos da penumbra, qual sonho de uma noite de outono.»

Excertos da crónica publicada na revista UMBIGO. Também em inglês (also in English).

http://umbigomagazine.com/pt/blog/2017/09/29/bravo-lear-tragedia-e-o-monstro/