Saiu novo número da RP – Revista Património. O quarto. Em baixo, um excerto do Editorial de Manuel Lacerda:

«As transformações incontornáveis do mundo atual alteraram radicalmente o entendimento e a situação global da cultura e o significado coletivo dos fenómenos culturais. Nunca como hoje as sociedades tiveram acesso a tão grande quantidade de informação. A rapidez com que hoje se comunica e o alcance e a capacidade mobilizadora das redes sociais alteram paradigmas, transformam estruturas, formas de trabalhar, mentalidades e posicionamentos ideológicos. A incerteza quanto ao futuro, pela volatilidade das matrizes com que operamos, levam-nos a problematizar permanentemente o papel ambivalente do património cultural na sociedade atual, os riscos e os desafios com que se depara. O crescimento exponencial da mobilidade da população no planeta, os efeitos das alterações climáticas derivadas do aquecimento global, o aumento avassalador da indústria do turismo, a proliferação de conflitos armados, os movimentos migratórios, o terrorismo, mas, acima de tudo, o aumento do fosso entre pobreza e riqueza levam-nos a questionar a utilidade do património cultural (no seu sentido mais lato) para a sociedade e aquilo que é hoje mais relevante.

Por tudo isto, «Património e Sociedade» foi o mote para reunir no Caderno desta RP um conjunto de textos que, em diferentes domínios do Património Cultural, refletem sobre a atualidade e nos colocam perante incertezas, caminhos e alternativas possíveis. O património urbano, presente e futuro, é aqui abordado sob diversas perspetivas. Uma que nos fala acerca da sua qualidade de resiliência, sobre a sua capacidade de regeneração e invenção, que lhe assegure um futuro em que não fique “refém da ação e da retórica do mercado turístico da nostalgia”. Outra, que destaca o património social a proteger perante a guetização, a gentrificação e a turistificação, fenómenos decorrentes das mais recentes transformações das economias urbanas, que aponta a necessidade da re-valorização dos lugares e das relações de vizinhança em vias de extinção, trazendo à tona os projetos de Siza Vieira apresentados na última Bienal de Arquitetura de Veneza. E, outra ainda, uma reflexão que foca a essencialidade da ideia de cidade e o reconhecimento do seu caráter transformativo, das suas contradições, dos seus paradoxos, diálogos e conflitos, obrigando a um comprometimento alargado de «princípios, estratégias e direitos» que impeça a perda de um continuum de valores e identidades que a façam única e reconhecível.

Num outro âmbito, o dos museus, diferentes artigos reequacionam questões fundamentais sobre a função, as prioridades e a relevância destes espaços públicos, para a sociedade. Por um lado, as relações entre o museu e os contextos são indispensáveis, ainda que os contextos e as comunidades saiam do estrito domínio territorial físico e se expandam pelo território global da Internet. Por outro, a centralidade da questão da mediação entre o museu e os seus públicos conduz a novos modelos, inclusivos, cruzando territórios e atores, num horizonte dominado sobretudo pela permanente problematização.»

O presente número inclui artigo de Opinião sobre o projeto MatrizMalhoa (MM), uma experiência onde, para Manuel Lacerda, «se procurou uma matriz projetual radicada na interrupção e na reestruturação efémeras da narrativa de um museu, abrindo caminho a novas leituras e reinterpretações.»

http://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/agenda/atividades-diversas/Apresentacao-n-4-da-Revista-Patrimonio/