Once the poster children for porcelain-skinned druggy excess, they’re now the embattled survivors sharing cautionary tales of bad decisions and dreams unfulfilled. […] Listening to Night Thoughts now is like hearing a eulogy from a favorite son – from its quasi-conceptual structure to its stardust-speckled guitar riffage to its abundance of misfit anthems and concert hall-crumbling ballads, the record is a testament to Bowie’s steely determination to make every song a seismic event.

Stuart Berman, Pitchfork

 

Suede renascem das cinzas (da juventude). Night Thoughts (2016), um título maravilhosamente ambivalente – como nunca deixaram de nos habituar – chega acompanhado de elogios militantes que, se pecam, é pela contenção. Este é, sim, apesar do de Bowie (confesso que ainda não o ouvi como deve ser…), o álbum do ano. Por duas razōes: por se tratar realmente de uma obra musical – um álbum, à antiga –, os temas discorrendo sequencial- e estruturadamente, com uma narrativa sónica irrepreensivelmente coerente; depois porque promete, e confirma, que ainda se pode por um disco a tocar e viajar com ele do princípio até ao fim e experimentarmos então uma espécie de nirvana pós-coito existencial. O percorrer destas paisagens e palavras que uma miríade de detalhes (arranjos sinfónicos, soundscapes psicadélicas, licks venenosos) nos relembra que o rock pode ser uma música toda ela totalidade… romântica.

 

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Tudo isto faz de mais um comeback dos Suede – lançado a 22 de janeiro, Dia de São Vicente [!?] – um sedutor universo e, deste, um encontro de conhecidos que de novo se multiplicam (e se desgeracionalizam!) a evocar não apenas as gloriosas noitadas do passado (sim, já passaram mais de vinte anos desde que Metal Mickey me entrou pelos canais auditivos adentro, numa minúscula discoteca à Estação do Rossio, dando 10:0 aos Nirvana em subtileza, sem nada a dever, em power, a Smells LIke Teen Spirit), mas também a indagar do futuro – mais imediato que remoto, já que, como a todos, futuro é esse deus escondido que nos bate constantemente à porta (nós é que às vezes não atendemos). Talvez por isso, Brett Anderson tenha desenvolvido tão magistralmente a sua técnica de detalhes evocativos, importando-se não tanto em expor narrativas, mas sobretudo em definir uma cena, lançando-nos para o momento em que tudo está à beira do abismo (Berman).

 

Rapazes Caleidoscópicos

Suede são uma banda que joga sempre de acordo com as sua próprias regras. Autocitação é coisa que não os assusta. O seu som pode sofrer ajustes a cada nova época, mas são mínimos e sobretudo respeitam o original mix de estilo e subúrbio que os tornou profetas apocalípticos de um som que teima em refocar-se, em vez de se dispersar em reinvenções espúrias. Se hoje estão older, wiser, deeper (para o Observer), a missão é, desde os primeiros singles, atirar-nos para uma ansiedade existencial para-juvenil em que a cada riff se ajusta a uma subtil análise da psique em ponto crítico. Há depois todo um universo de metáforas e metonímias, de ironias e piscadelas de olhos, que nos atiram para uma espécie de glamour dos subúrbios, como para fluorescentes recantos negros da alma com a maior das convicções e panache. O kitsch da coisa eleva-nos & rebaixa-nos o espírito para cavernosas luminescências, e é isso que nos torna iniciados nesta ascensão, nesta queda. Ao final, dançamos, dançamos, pedimos e damos beijos e acabamos a pendurados, com eles, nos candelabros da pista de dança. Épicos que nós somos!

Isto tem garantido a empatia com um público fiel que, desde que haja Suede (lá está, a intermitência da carreira não ajudou a criar, e sobretudo a manter esse público) encontra rapidamente, entre falsettos lânguidos e guitarradas excitadas, o link com a eterna juventude (pun certainly intended). Na poesia evidentemente circunscrita de um songwriter que está tão seguro das suas limitações lexicais quanto da exemplaridade da sua encenação discursiva, nasce e confronta-nos um mundo. E que estranho é recuperar os vídeos dos loucos anos 90 – a vertigem dos primeiros Drowners ao vivo – e ver que a loucura continua – Drowners como estado de graça do povo da camurça, em 2016 –, mas agora, por entre os mais generosos, belos e rasgados sorrisos, com um par de rugas onde antes estavam apenas covinhas.

 

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Older, wider, better! À parte o inenarravelmente imperturbável Noel Coding – prémio carreira para músico mais inexpressivo et pourtantsexy as hell; e um sempre absolutamente assertivo Simon Golbert na bateria – como é possível ser tão brilhante- e consistentemente discreto!! –, Suede são três almas penadas em absoluta entrega às canções como territórios de emoções catárquicas. O baixo enleante e atmosférico (e não apenas poderoso) de Mat Osmond e a guitarra cheia de attack (já não apenas honesta na sua progressiva superação da ausência do guitarrista original, Bernard Butler) de Richard Oakes …… estabelecem com a voz e o corpo de Brett Anderson uma química romântica e metasexual. O ménage tem um líder, é certo, mas como nos grandes acts do rock o movimento e a presença da voz assenta nos membros-instrumentos, adornando-os de um star power que só tem efeitos precisamente porque as abelhinhas operárias não param de tecer lá atrás a teia da sedução. Quem já os viu um par de vezes que seja, sabe do que estou a falar. Energia animal.

 

Dimensōes de um encontro

Quando dizemos que os Suede vivem de acordo com as suas próprias regras, estamos a falar primeiro da alquimia que faz de qualquer banda uma referência: canções, sempre; depois, percurso e narrativa mítica de álbum para álbum, posicionamento ideológico – banda que se preze ocupa orgulhosa- e humildemente apenas o seu próprio podium. Last but certainly not the least uma boa banda é a que revela continuamente capacidade de aggiornamento (não confundir com operações de marketing (estou a pensar nos Stones de Some Girls [1978], mostrando que, se for preciso, um cocktail de punk e disco, e sim, cortar o cabelo, podem salvar uma instituição da contracultura de se transformar em bonecos de cera num museu). Aí, Suede sempre procuraram a) ao nível musical, não ser rigorosamente nada mais que eles próprios; b) ao nível do som, mas também da comunicação e do marketing, levar essa irredutibilidade a integrar discretos sinais de cada contemporaneidade (piscadela de olho à música electrónica em Head Music, entrevistas nos momentos-chave a enfatizar os problemas com a droga, não abdicar de um design de continuidade para embrulhar o produto… com celofane estereográfico).

O som do novo álbum é aliás, em vários aspectos, diferente do dos álbuns anteriores. Mas, em muitos mais ainda, completamente idêntico. Assim como os Stones soam a Stones, os Suede soam a… Suede. Mas onde, tantas vezes, vislumbramos bandas à defesa, aqui temos uma banda sem nada a perder a não ser a sua árdua tentativa de manter a identidade. Se calhar é isso que os torna tão nossos… familiares. E quando assim é, quando as palavras – vê-se isso nas entrevistas e tudo bate certo com os poemas – reforçam as ideias musicais, e ainda os arranjos bigger than life sublinham as opções quase escolásticas das composições… temos disco.

Por isso, Night Thoughts funciona, desde o emocional intro de When You Are Young como uma sequência cinemática de cenas dramáticas – talvez a representação das paixões da alma e dos recantos sombrios de cada biografia humana nos palcos manhosos mas oh so sweetly sweaty de uma cultura pop cada vez mais exangue. Os Suede soam todos eles a resiliência. Nua era de informação pervasiva, não é coisa pouca. E a verdade é que os primeiros temas são sempre a subir! Um milagrosamente autobiográfico Outsiders leva a um redentor No Tomorrow e depois, Pale Snow é a primeira balada, logo seguida de um everything will flowianoI Don’t Know How To Reach You. Typical Suede, em suma, estes contrastes progressivos, e exactamente o que estávamos precisados de ouvir. Porque a uma banda que nos marca se exige tão somente… que nunca deixe de o continuar a fazer.

Isto faz de Night Thoughts uma radiosa fotografia do nosso presente: radioso num sentido oblíquo, como que infectado pela luz. Sem qualquer exagero, parece um best-of tão brilhantemente seguro de si, que trará para o convívio destas petis morts novas almas penadas e espíritos em devaneio. Se é que o álbum não funciona mesmo como um mapa para irmos à procura dos riffs dos discos anterior. Afinal são outras mas ainda as mesmas as crianças de Like Kids, arrepiante coro desafinadamente infantil… We will watch them, we will watch them, we will watch them burn…

 

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É nestes detalhes que os Suede sempre se revelaram para além da moda, pagando até alto preço por isso. Sabem que cada singalong na tournée de 2016 é uma espécie de espinha cravada na garganta do Dr. Tempo, o que torna a comunidade efémera de cada concerto uma espécie de Loucos de Londres estupefactos com a poética de uma suburbia global que começou a existir precisamente com as palavras meio parcas, meio eloquentes, meio irrelevantes (o ressoar das situações íntimas com uma totalidade urbana que ganha corpo) de Brett. Pois que Anderson é dandy, mas nele esta dimensão retro-anacrónica é um passo no vazio, o que está reservado apenas para os heróis. O abismo – incluindo o das suas camisas escandalosamente abertas – resgata-os de uma vida de série B e coloca a pandilha toda (Brett, Matt, Simon, Neil e Oakes) lá bem em cima de um círculo de luminárias. A ver, e seguindo o ponteiro de uma nervosa bússula imaginária: Beatles, Stones, Bowie, New York Dolls, Sex Pistols, Joy Division, Smiths, Cave. É deste tipo de sismos que estou a falar.

Os Suede transformaram o cimêncio – fica aqui a homenagem também ao Diogo Seixas Lopes, que no livro com Nuno Cera inaugura uma empatia radical com os espaços-capitais do nada da cidade contemporânea – em hinos à resiliente beleza da alma, interrompidos por ganchos abrasivos que por sua vez picam a paisagem de enleios pós glam em que o que brilha não são as lantejoulas mas a obscuridade insinuante de fantasias mórbidas. São pulsões de morte que explodem nas nossas mãos de meninos.

Numa jogada particularmente inteligente, o disco vem acompanhado de um filme de Roger Sargent (espécie de ópera-rock desenhada para a geração youtuber) que acompanha integralmente as intensas imagens poéticas e propriamente musicais do álbum com uma narrativa de fôlego cinematográfico. Prometo ver quando o fogo destes temas amainar. Mas espreitando farrapos da história nesta entrevista já dá perceber como o busílis da arte é o aproximar-nos do que nos era anteriormente alheio mas se torna, num gesto preciso e devidamente encenado, imediatamente nosso. Em consequência, é para já: outsiders de todo mundo, uni-vos! Nosso líder é um cinquentão de camisa suada, franja escorrida e discreta barriguinha. Sua causa é um encanto, seu canto uma sedutora mensagem da vida à morte, e vice-versa. A sci-fi lullaby, também como se um avatar perdido e inconsolável de Bowie decidisse ainda não morrer. See you in your next life, when you fly away for good.

Para o Pedro Cláudio