O artigo de Luís Raposo para ler no Público de hoje. Deixamos um excerto:

“Mesmo aqueles que defendemos ter o 25 de Abril de 1974 sido revolução e não mero golpe de Estado, caímos demasiadas vezes na armadilha de nos fixarmos no lado mais “acontecimental” do mesmo. Ora, para atingir a verdadeira dimensão do “dia inicial inteiro e limpo” que a vida nos deu o prazer ter vivido, é necessário ir mais fundo, abrangendo a história das mentalidades e a história dos saberes.

O domínio do património cultural em sentido amplo pode constituir um campo de análise especialmente revelador, porque nele se juntam os pontos de vista das classes urbanas com os dos povos das aldeias, na defesa de bens (materiais) e valores (imateriais) que ambos consideramos memoráveis.

Em 1974 e como há anos lembrava Pedro Canavarro, o próprio conceito de “património cultural” era ainda, em grande medida, ignorado. Vivíamos debaixo de décadas de “património artístico da Nação” e de “folclore”. Mas algo estava já a mudar, recordando-nos que uma verdadeira revolução não se resume ao momento do assalto ao palácio. De todos os campos patrimoniais arriscamos afirmar que o da arqueologia é o mais iluminante, por ser o mais democrático: aquele que está tão disseminado no território que literalmente se encontra sob os nossos pés, o único que, visto do lado do povo rural, é simultaneamente distante, misterioso até, e próximo; e do lado dos investigadores, urbanitas quase todos, aquele que mais obriga deixar arquivos e perscrutar o terreno, numa convivência com o dito povo baseada em efectiva troca de saberes e não em equívocos romântico-paternalistas.

A descoberta, em 1971, da arte rupestre do vale do rio Tejo constitui o exemplo mais acabado do que dissemos. Remetido para o “fim do mundo” dos territórios da raia, um grupo de jovens estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa encontrou em Ródão o seu espaço de libertação, o lugar onde se misturava arqueologia e conhecimento da vida, numa simbiose em que o povo não era necessariamente bom (e por isso se escandalizava pela nossa liberdade de costumes), nem mau (e por isso nos fazia estremecer na sua dignidade esquálida, mas telúrica). Um lugar, enfim, onde se trabalhava arduamente durante o dia e à noite se discutia estruturalismo, marxismo e demais “ismos”, ouvindo-se também da viola de um de nós, “manuel alegrista” lhe chamávamos, o Canto, as Armas e a Praça, joeirados pelos tons do Adriano, do Zeca ou do Fanhais. Ali estava a mudança de mentalidades que levava os mesmos estudantes, a chamada “geração do Tejo”, a “invadir” em 1973 o 3.º Congresso Nacional de Arqueologia, reunido no Porto, com comunicação subscrita por 11 autores (coisa inaudita para a época), subvertendo de tal modo os rituais da encenação científica que o próprio presidente da mesa abandonou a sessão, insistindo, aliás sem êxito, para que o auditório lhe seguisse o exemplo. “