“Segundo os dados do Eurobarómetro, divulgados pelo PÚBLICO no passado domingo, os consumos culturais em Portugal sofreram uma forte redução relativamente aos resultados anteriores, de 2007. Estes inquéritos informam-nos sobre a evolução dos consumos das commodities culturais, mas deduzir dessas medições um teor e um estado geral da cultura é uma enorme falácia. A noção de “consumo” é cheia de equívocos quando aplicada ao campo da cultura, desde logo porque é meramente quantitativa e preenche essa forma de niilismo que se traduz no princípio de que tudo se equivale: não há hierarquias, qualquer coisa é agenciada com outra coisa e dirige-se, sem distinção, a qualquer pessoa.
Todos conhecemos o pietismo das boas intenções culturais que faz da leitura uma moral e multiplica as campanhas filantrópicas a favor dos livros. Como se os livros, os filmes, os espectáculos e tudo o mais — muito mais, porque o universo da cultura é enorme e está sempre em expansão — não pudessem ser, não fossem efectivamente na sua maioria, e sem
deixarem de ser produtos culturais, meios de produção da imbecilidade. A cultura não é só o que
eleva e emancipa, é também o seu contrário; não é apenas nobre, é também ignóbil. E talvez seja tarefa mais necessária defendê-la da proposição de conformidade dos que acham que ela é tudo do que da malvadez dos que entendem que ela é nada. A cultura como redenção, decoração e fuga aos aborrecimentos quotidianos é um bem partilhado pela humanismo dos filisteus, aqueles que se “atiram ao ornamento como o cão à salsicha”, como dizia Karl Kraus. Pode ser que estes inquéritos ao consumo dos produtos culturais tenham um valor indicativo
quanto ao estado da integração e da socialização da cultura, mas muito dificilmente podem ter algum valor enquanto medida daquilo que verdadeiramente interessa, quanto aos seus efeitos. Em primeiro lugar, porque na leitura desses inquéritos parte-se sempre do princípio de que não consumir tais produtos é uma condição infra-cultural. Fica assim por avaliar o que há de culturalmente consciente e calculado no afastamento relativamente aos consumos.
Consideremos, por exemplo, o alto teor crítico da atitude de quem, achando que as livrarias são lugares hostis aos livros que têm grande significado científico, ou literário, ou cultural, acabou por se desabituar de as frequentar. Na leitura destes inquéritos, os auto-excluídos de boa parte dos consumos culturais mensuráveis pelos critérios utilizados (uma conclusão empírica diz-nos que são já em grande número) não são, evidentemente, identificados e contam apenas para a legião dos que vivem numa condição classificada como infracultural.
Mas eles são, afinal, a elite cultural, aqueles que se desinteressaram pelo que circula com mais
abundância e de maneira mais visível sob o nome de “bem cultural”. Esta ideologia que tem como modelo a homogeneidade do mundo da economia produziu também uma equivalência entre “excelência estética” e “excelência económica”. A lógica económica das indústrias culturais requer a transformação do artista, do escritor, do agente cultural, em empreendedores de si próprios. A nostalgia da grande arte, dos grandes artistas e dos grandes intelectuais é um tropismo fundamental de todas as políticas culturais, do passado e do presente. Mas a
grandeza mede-se agora pelo critério da “excelência”, que se tornou uma “palavra-maná”, um
signo mágico que faz recuar as águas do mar e abre uma passagem para a terra prometida.”

A crónica de António Guerreiro no Público/Ipsilon de 29 Nov. 2013, para ler aqui.

(um post ‘roubado’ aqui)