Destaque para a análise de António Pinto Ribeiro publicada hoje no Ípsilon, A Rebelião precisa de outra linguagem (exclusivo para assinantes).

Deixamos um excerto

“A ideia de que o colonialismo pertence ao passado histórico caricaturado em grande parte nas imagens de conflitos entre raças tem-nos afastado de olharmos com rigor para este fenómeno de supremacia e de imposição de modelos de comportamentos de uns países, de uns grupos de poder e de uns grupos ideológicos sobre outros. E de perceber que hoje há formas coloniais continuadas mas com configurações diferentes – os vários neo-colonialismos – e novas relações de colonizador-colonizado. A “crise” trouxe para dentro da Europa o que a Europa durante séculos fez fora de si. Durante séculos, a Europa colonizou; agora, ironicamente, enquanto as ex-colónias crescem e se divorciam cada vez mais, é dentro de uma união de países da Europa que uma colonização se faz – sustentada por uma determinada economia, mas tal como a “nossa” outra colonização, também pelos costumes, contando com a resignacão, e sobretudo pela linguagem. E Portugal está entre os países deste novo mapa de colonial. Já não se trata de vislumbrar o capataz chicoteando o empregado ou o patrão de balalaica passeando-se pelos seus territórios sem fim. Trata-se de constatar que vivemos hoje num território colonizado, e colonizado pelos credores, pelos detentores da finança global – e por uma Alemanha cada vez menos europeia e uma Europa cada vez mais alemã, na definição cruel de Ulrich Beck.

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O aparelho do colono e os seus executores impuseram esta linguagem. Nunca tanto se ouviu falar de economia, austeridade, culpa do excesso de gastos, do luxo, do dispêndio, da contenção, da dívida. E os média fazem eco desta linguagem pobre e autoritária, reproduzindo-a à exaustão e impondo-a aos cidadãos, a quem diariamente roubam outra linguagem possível e necessária: convívio, festa, alegria, ciência política, vizinho, literatura, devir, futuro, dança, morte e nascimento, cinema, mar, rebelião, conhecimento, história. Os cidadãos ficam tolhidos perante estas outras linguagens, estes mundos alternativos que possibilitariam outros modos de viver. Esta colonização do espírito é aquilo a que é mais difícil resistir e, sobretudo, responder porque a imposição colonial de uma única linguagem assusta, desconsidera e exclui as outras linguagens, que aparecem assim – e, repita-se, com a cumplicidade dos média – como linguagens da irresponsabilidade. Por isso importa reler aqueles que, em outros tempos de autoritarismo, encontraram métodos de desconstrução e de rebelião.

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A palavra pode ter efeitos persuasivos quando falada, é sabido quanto a oratória tem a capacidade de converter. Mas, fora desse âmbito, a capacidade performativa da palavra é residual: não basta que eu escreva “Demita-se o Governo!” para que tal aconteça. Dizer não significa necessariamente fazer; contudo, que não seja possível deixar de escrever – para desconstruir as falácias dos discursos dos poderes dos colonos, como acto de exorcismo onde o colectivo se reconheça e como acto propositivo e afirmativo cheio da energia dos rebeldes (e em nome também dos subalternos) -, de escrever com outras linguagens, com aquelas linguagens que levam à descolonização dos espíritos.”