Destaque para o artigo de Montse Badia  traduzido e publicado pela Arte Capital no passado dia 6 de Maio, reflectindo sobre o mundo do trabalho nas artes e os impactos da redução de financiamento público. O agudizar das contradições sociais que resultam das políticas económicas de hoje também têm o seu reflexo no campo de produção cultural e aquilo que parecia um ideia distante do artista do século XIX, parece ser hoje uma realidade cada vez mais próxima.

Deixamos aqui o artigo e um convite a visitar o site aqui.

“Há uns dias Paloma Checa fez uma análise do último congresso da IKT (Associação Internacional de Curadores de Arte Contemporânea) (1) celebrado em Madrid. Escrevia sobre os temas abordados nos debates, mas também do que se falou nos encontros informais: da precariedade do trabalho do comissário independente ou, o que é o mesmo, da precariedade de trabalhar em arte. E não diremos que esta era uma situação inimaginável há cinco anos, porque também era impensável que o mundo estivesse governado pelos mercados financeiros da maneira que está agora mesmo.

Nalguns contextos começam-se a tomar medidas: no Reino Unido iniciou-se a campanha “What Next”, uma iniciativa dos responsáveis dos equipamentos culturais, desde teatros a museus, passando por escolas de dança, para promover o investimento público nas artes. O objetivo é que as artes se convertam numa espécie de manifesto na vida política. Trata-se de que os políticos entendam a importância e o valor da cultura (e sim, a cultura pode ter rentabilidade política e económica), ainda que o debate de fundo seja sobre o tipo de sociedade que estamos a construir e em que tipo de sociedade queremos viver. Em Madrid estão a preparar-se fechos no Centro de Arte Reina Sofía. O objetivo é o mesmo, reivindicar o valor da cultura.

Harald Szeemann dizia que os artistas eram como uma espécie de sismógrafos do que estava a acontecer na sociedade, porque detectavam ou refletiam (de maneira consciente ou inconsciente) as mudanças que estavam a ter lugar. A afirmação continua a ser válida também a um nível mais global. No mundo global em que vivemos aumentam as distâncias que separam uma classe extremamente rica e uma grande quantidade de pessoas cada vez mais próximas da pobreza e das necessidades básicas. A sociedade do bem estar está a rebobinar a uma velocidade supersónica. O mundo da arte também reflete esta situação: existe um mundo de leilões milionários, de galerias de arte instaladas na periferia das grandes capitais, localizadas perto de aeroportos privados, de colecionadores vindos de países exóticos capazes de comprar tudo e mais alguma coisa e obras de arte únicas cujo preço tem muitos zeros. E existem profissionais da arte (artistas, críticos, comissários, gestores, designers, etc.) que trabalham com ideias, com contextos, com conteúdos, e que fazem malabarismo com números e orçamentos. Parecia superada a ideia do artista do século XIX e princípios do XX com uma vida tão boémia como pobre, mas parece que volta a ser mais atual do que pensávamos.
O trabalho na área artística vive outra série de contradições também: ainda falamos de comercializar peças únicas ou de edições limitadas (em formatos absolutamente reprodutíveis); de comprar e vender objetos; de acessos limitados; de instituições que cresceram demasiado, sendo-lhes muito difícil adaptar-se à flexibilidade e ao dinamismo que os tempos, as práticas artísticas e o público requerem; de querer/poder ser uma indústria. Trabalhar em arte não é algo “bonito” ou “interessante”, trabalhar em arte é algo necessário, e não é fácil. Tem que ver com ser crítico, com a prática de questionar as coisas, com o descontentamento, com procurar e criar sentido. É claro que como artista, crítico ou comissário se pode criar sentido em qualquer parte, numa página Web ou no corredor de casa. O problema é que se reconheça o valor e a necessidade. Alguém escreveu há tempo: “A cultura é a opção política mais revolucionária a longo prazo”. Não é casualidade que agora mesmo esteja no ponto da mira.