E hoje olhamos para a Europa e lembramo-nos do título de um dos seus livros recentes e que não tem tradução:L”Europe introuvable. Não encontramos a Europa que conhecíamos há cinco anos.

Esse título não tem tradução. A versão portuguesa é A Europa Desencantada mas não é a mesma coisa. O projecto europeu não se encontra. Nós pensávamos que ele estava facilmente ao nosso alcance. Mas era uma aposta muito alta, de uma utopia assumida. Provavelmente pensou-se que havia tempo para cumprir essas diversas etapas. Não houve. Embora retrospectivamente, hoje tendo a pensar que se devia ter consolidado esse núcleo central, e só depois agregar os outros. Diz-se que Jean Monnet teria dito que era pena que se tivesse começado por esta associação de tipo económico, que devíamos ter começado pela cultura. Mas essa também não é uma grande ideia. A Europa morre de cultura, não é a cultura que lhe falta…

E agora está a viver um inesperado choque cultural entre o Norte e o Sul.

Sim. Para não falar de um outro choque, que esteve sempre latente mesmo que invisível aos nossos olhos, e que é o confronto com o islão. Temos dois choques: a divisão Norte-Sul, que já existia na História, mas que agora aparece com manifestações políticas, como se tivéssemos duas europas.

A boa e a má.

A boa e a má. Mais a fractura do islão. Aqui, em Portugal, a coisa não é muito visível porque o pouco islamismo que há é muito discreto. Não incomoda ninguém. Mas não é a mesma coisa no país onde vivo. Em França, é tudo sistemático. Veja que um Presidente de direita, Nicolas Sarkozy, inventou este conceito de islão francês: a ideia de que a França assimila tudo e que o islão também seria assimilável. Mas não é. São cinco milhões. É a Dinamarca. São culturas muito profundas, muito enraizadas, muito orgânicas, e o laicismo francês não tem resposta para aquilo.

O laicismo foi pôr a tradição religiosa em casa, no seu lugar, e separar o político do resto. Mas o islão não faz essa separação. Não tem essa concepção. Não creio que seja um perigo iminente para a Europa, mas é uma coisa latente.

Voltando à Europa que não encontramos, se nos dissessem que isto tudo iria acontecer há cinco anos, nós não acreditávamos.

Não, não acreditávamos. É uma crise do sistema europeu, da própria Europa, e não uma crise de um aspecto da construção europeia.

Vemos hoje despontar velhos fantasmas que considerávamos mortos e enterrados para sempre. As manifestações na Grécia com o retrato da chanceler com o bigodinho, incompreensível para os alemães, que consideraram que já expiaram a culpa. Tudo isto é perigoso?

É, sobretudo, um recuo a diversos níveis a uma coisa que pensávamos que o projecto da construção europeia estava precisamente destinado a pôr fim. Lembro-me de que um jornal publicou recentemente um mapa da Europa em forma de puzzle, em que cada uma das nações europeias estava separada de todas as outras. O nosso país, feito peixinho, à margem e cá no fim. Mesmo que isto seja caricatural, corresponde a este passo atrás. Um passo atrás que já nem é sequer o passo atrás para uma Europa que nós conhecemos com todas as suas desgraças do século XX. É quase como se voltássemos a uma Europa do Tácito, do Império Romano com os bárbaros e tudo numa espécie de caos. Pensávamos que a vaga nacionalista que foi característica do século XIX e que, depois, deu origem a todas estas catástrofes do século XX, estava realmente a ser superada e agora vemos que não está. Basta olhar aqui para o lado. Na Espanha, a Catalunha não desiste de ser uma nação. O País Basco reclama. A Galiza também. Temos aqui um caso quase de escola que é a nossa própria península. E tanto mais extraordinário quanto, há quatro anos, a Espanha parecia ser uma nação de topo da nova Europa que estávamos a construir. Havia um discurso na Espanha, uma comparação implícita que dizia: já somos como a França.

Que é sempre o que os espanhóis querem ser.

A barreira dos Pirenéus parecia ultrapassada. Eu próprio fiz, no Instituto Cervantes, uma palestra sobre esse milagre europeu, que agora desaparece. De repente, a Espanha começou a não dar conta do recado. E agora está com um desemprego que ainda é maior do que o nosso e tem esse problema da auto-integração que, felizmente, nós não temos.

Olhando mais para cima, os europeus estavam preparados para esta realidade nova de a Alemanha assumir um enorme poder?

Talvez. Já passou mais de meio século desde aquilo a que eu chamo o “buraco negro da História contemporânea”. Estávamos conformados com o mapa que a Guerra Fria tinha imposto à Europa e, portanto, ninguém esperava que a União Soviética implodisse de uma maneira tão rápida e até misteriosa. A Alemanha ficou de repente uma nação mais poderosa, quando o ex-inimigo ainda recente que era a União Soviética desaparece e a Rússia enfrenta grandes problemas para voltar a ocupar o seu lugar. Uma das coisas que pensava, mesmo quando o projecto europeu ainda estava a funcionar, era que a Europa, depois da queda do Muro, não teria uma palavra, não teria uma política, uma estratégia qualquer que englobasse a Rússia. Porque a Rússia pertence à Europa cultural e historicamente. É a pátria do Toltsoi, mesmo com a justificação de que não é um modelo democrático propriamente convincente.

Mas quanto mais tempo a Europa vai resistir a esta realidade nova em que as decisões passaram a ser tomadas em Berlim? Ou melhor, por quanto mais tempo a França vai aceitar esta subalternidade?

A França também não consegue superar outros fantasmas. Não são os mesmos da Alemanha, mas são fantasmas também. Ela suporta mal não ser a “menina bonita” da História europeia, que foi nos últimos três séculos. Desde a Revolução Francesa. E em que o “mau da fita”, realmente, é uma Alemanha que é muito recente, que tem pouco mais de cem anos, desde Bismarck. Antes disso, era um país dividido, sem coerência interna, uma nação tardia. Uma parte desta tragédia alemã é o facto tardio da sua unidade política, que foi feita à força. E isso gerou todas as consequências que nós conhecemos.

A França tem esse privilégio de ser o paradigma da nação tal como a Revolução Francesa exprimiu… Aliás, só há dois paradigmas da História europeia: o inglês e o francês, igualmente importantes, um e outro. Na ordem ideológica, digamos assim, o paradigma francês da Revolução marcou a Europa e o mundo inteiro. Mas a Inglaterra, empiricamente, que conseguiu uma prática política que foi planetária, envolveu o mundo inteiro…

Ora, a Alemanha não pertence nem a um nem a outro destes dois paradigmas. Foi, até há pouco, um problema para ela própria. E de repente, com grande espanto nosso, consegue sair de um caos que poderia tê-la feito desaparecer do mapa. Claro que intervém aqui uma terceira força, que já estava presente desde a Primeira Guerra e que são os Estados Unidos. São eles que, por necessidade estratégica, mantêm a Europa a flutuar. Primeiro, o Plano Marshall. Depois, a frase de Kennedy junto ao Muro de Berlim, que quer dizer que a questão fundamental é deter o perigo soviético.

 

in Público, 19 de Maio de 2013. A ler aqui.