mnetnoDestaque para a crítica de António Pinto Ribeiro sobre a exposição permanente do Museu Nacional de Etnologia apresentada sob o título e “O museu, muitas coisas”, publicada no jornal Público de ontem (a ler aqui, em exclusivo para assinantes).

Deixamos um excerto:

O museu, muitas coisas é o título perfeito para a nova exposição permanente do Museu de Etnologia. Organizada em sete núcleos feitos a partir do acervo do museu, pela forma como está montada – entendendo-se por “montagem” todo o processo que vai da concepção do problema, investigação, selecção de peças até à sua exposição – constitui um contributo notável para clarificar e, até, apresentar soluções para alguns problemas que surgiram depois da criação da Etnografia como disciplina formalmente autónoma, muito em particular as questões provindas dos campos dos estudos pós-coloniais e dos estudos comparatistas e culturais que, para muitos, colocavam limites de irremediável conflito com a Etnologia e até com a Antropologia. Destas questões, as mais complexas têm a ver com as noções de tempo, de universalidade e de pertinência: pertinência de uso e de valor.

Nos estudos pós-coloniais, a noção de tempo assenta sobre uma divisão entre 1) um tempo pré-colonial – de origem e de constituição de comunidades, com a criação dos seus arquétipos de funcionamento, 2) um tempo colonial – de subjugação e destruição das comunidades, de imposição de valores dos ocupantes e de hegemonia cultural – e, finalmente, 3) um tempo pós-colonial, frequentemente identificado com um tempo da pós-independência que recupera parte do recalcado do tempo colonial.

Aparentemente intransponíveis, estes tempos são, nesta exposição, co-habitantes e isso porque nenhum dos objectos expostos traz violência para o seu vizinho. É um facto que o valor de uso de muitos deles está ultrapassado – há, por exemplo, instrumentos musicais recolhidos por Ernesto de Oliveira e Benjamim Pereira na secção A música e os dias – ou seja eventual e apenas em episódicas festividades. Contudo, quando já não o têm, não estão necessariamente excluídos da produção musical, podendo até contribuir com as suas sonoridades antigas para a produção musical contemporânea.”