The Return of the Real 20 – João Louro no Museu do Neo-Realismo

E a propósito, o artigo de Nuno Crespo “Sob a calçada, a arte”  no Público de hoje. A ler aqui. (exclusivo para assinantes).

Deixamos um excerto:

“Pensar o lugar da obra de arte e dos artistas numa sociedade inclemente, paradoxal e muitas vezes sem sentido foi o desafio que o Museu do Neo-Realismo lançou no ciclo The Return of The Real. João Louro fecha um programa que, desde 2007, levou mais de 20 exposições ao museu de Vila Franca de Xira.

Desde que a arte se autonomizou do contexto religioso que a pergunta sobre o lugar dos obras de arte e o estatuto dos artistas tem sido incessantemente colocada. As respostas são sempre provisórias, insuficientes e, sobretudo, insatisfatórias para dar conta da multiplicidade de mecanismos encontrados pelos artistas para lidar com a realidade, por definição ambígua e paradoxal. Umas vezes essa relação é de registo, documentação ou ilustração, outras de combate. Qualquer que seja a modalidade, a relação da arte com a realidade é sempre política – porque toma partido, assume posição e dá uma voz.

Ambicionando justamente mostrar um conjunto de artistas cujos trabalhos reflectem uma relação crítica e criativa com a sociedade, a política e a cultura, o ciclo The Return of The Real, que David Santos comissariou para o Museu do Neo-Realismo de Vila Franca de Xira ao longo dos últimos seis anos e que agora se encerra com uma exposição de João Louro (até 3 de Março), permitiu recolocar a questão do compromisso político no contexto da criação artística. Os mais de 20 artistas participantes (Ana Pérez-Quiroga, Ângela Ferreira, António Olaio, Fernando José Pereira, João Tabarra, José Maçãs de Carvalho, Manuel Santos Maia, Pedro Cabral Santo, entre muitos outros) foram convocados para, em diálogo com o texto do crítico de arte norte-americano Hal Foster O retorno do real (1996), apresentar novos trabalhos que se inscrevessem nesse horizonte político e museológico.

No livro de Foster, sobretudo famoso pelo ensaio O artista como etnógrafo, o teórico tenta sistematizar as grandes metamorfoses do papel social e cultural da arte e dos artistas, mostrando que transformação marxista do autor em produtor (cunhada fundamentalmente pelo filósofo alemão Walter Benjamin) já não é suficiente para identificar as grandes marcas das vanguardas artísticas e que, grosso modo, deve ser complementada (ou mesmo substituída) por uma visão do artista como etnógrafo. Neste contexto, a obra de arte passa a ser vista não só como um documento do real, mas como uma espécie de ferramenta de contestação da ordem política, dos modelos económicos e da organização social dominante que favorece uns em detrimento de outros. Naquele ensaio, interessava a Foster mostrar o modo como a arte se transformou num instrumento interventivo e activista fundamental e mapear o terreno comum entre as vanguardas políticas e as vanguardas artísticas. À inspiração e ao isolamento do artista tão ao gosto romântico, contrapõe-se agora o artista como agente de transformação e voz de contestação. Já não se trata, segundo Foster, de chegar ao museu, mas de chegar à rua. É desta forma que a sida, o feminismo, os direitos gay, as minorias étnicas e as comunidades desfavorecidas política, cultural e economicamente ganham lugar de destaque em algumas das práticas artísticas mais decisivas da contemporaneidade.

Para David Santos, director do Museu do Neo-Realismo e comissário do ciclo, o texto de Foster era uma presença obrigatória, não só porque “as relações entre a criatividade literária, a arte e a política constituem a base do património do museu”, mas porque a viragem antropológica anunciada por Foster acentuou a “necessidade de questionamento crítico sobre o lugar da arte na sociedade contemporânea, aliando desde cedo uma forte conotação política enquanto estratégia de comunhão entre artistas, processos de trabalho, e o público”. O pós-moderno, com as suas obras efémeras, minimais, conceptuais e o seu campo expandido de actuação, não só tornou instável o terreno da história da arte como, acrescenta David Santos, motivou um “regresso “do” e “ao” real”, que se traduziu ao mesmo tempo na sua “reinvenção” crítica.” Um regresso que se caracteriza principalmente pela eficaz problematização que promove do lugar institucional da arte e dos artistas.”