No fim-de-semana seguinte à nossa viagem a Guimarães desloquei-me a Coimbra, para participar num jantar com amigos, ex-colegas de casa dos tempos da faculdade. Durante a refeição constatei que a esposa de um deles era natural de Guimarães. Logo puxei da pergunta: – “Então o que é que acha da Capital Europa da Cultura?”. Após uma ligeira hesitação, retorquiu afirmando que tratava-se de uma iniciativa importante para a cidade, que tinha contribuído para o desenvolvimento do turismo pela atração de muitos visitantes, embora julgasse que muitas das propostas apresentadas eram orientadas para um público mais conhecedor, dando o exemplo da “Dança Macabra” de Christian Boltanski (que já o Prof.º João Serra na nossa conversa no domingo de manhã havia apontado como algo “pesado”) anteriormente apresentado na Fábrica Asa. Contrapus apontando a presença de uma programação eclética pensada para “deseruditizar” o fenómeno cultural e, mais do que isso, envolver fortemente a comunidade em todas as etapas do projeto criativo. Um mero exemplo dessa participação são os corações de cartão que encontramos orgulhosamente dispostos nas montras de quase todas (!) as lojas da cidade, personalizados de acordo com o objeto e criatividade do proprietário e empregados do estabelecimento. Continuei, referindo o contributo da CEC para a regeneração de algumas áreas urbanas da cidade (caso da zona dos Couros onde ficamos sediados), bem como para a revitalização do tecido económico, pelo turismo, instigando pequenos negócios no domínio do design e do artesanato que alimentados por uma redescoberta coletiva de alguns valores identitários locais, potenciada pela CEC, florescem aqui e ali em cada esquina. No final, ambos concordámos que talvez o maior desafio da CEC seja o futuro pós-evento, a capacidade de dar continuidade a uma programação artística multidisciplinar, potenciando os equipamentos já existentes/criados (alguns dos quais tivemos a oportunidade de visitar), e principalmente insistindo no envolvimento da comunidade na construção de uma cidade criativa onde a valorização pessoal pela cultura se sobreponha à ditadura da orçamentação financeira ou à casuística das convicções de quem conjunturalmente gere a coisa pública. Parece-me que a aferição do sucesso ou insucesso desta capital europeia apenas poderá ser feita daqui a alguns anos, já que o seu verdadeiro legado será o… seu legado: a capacidade da cidade (poder político, tecido económico, terceiro setor, artistas, criativos e munícipes) em continuar um processo de valorização territorial e comunitária, iniciado no século passado (e que valeu em 2001 a classificação do seu centro histórico como Património da Humanidade pela UNESCO), e que tem agora na CEC uma etapa decisiva no seu desenvolvimento, afirmando uma cidade criativa, sustentável e inclusiva. Guimarães, parece-me, vai no bom caminho, oxalá outras sejam capazes de seguir o trilho.

Rui Venâncio