Guimarães -2012: Os desafios da transferência

A Capital Europeia da Cultura (CEC) entra nos seus dois últimos meses de programação com um ativo de reconhecimento público, de consistência programática e de rigor orçamental. Como previsto, para que possa cumprir todos os seus enunciados, será necessário ainda dispor do primeiro semestre de 2013, tempo de conclusão do estudo de impactes dos projetos executados. Mas o tempo da transição deve ter início desde já, se se quer garantir continuidade e sustentação ao legado produzido.

Todos os fóruns internacionais, designadamente europeus, sobre o investimento na cultura, acentuam hoje, cada vez mais, os temas do futuro, centrados no reforço da estruturas de produção artística e cultural e na adoção de novos modelos de relação entre cultura e educação e cultura e economia.

Em 20120, Bruxelas celebrava os 25 anos das CEC e recordava: “o legado está longe de ser automático (…). Tem de ser planeado, orçamentado e trabalhado. Uma das principais chaves para o garantir reside em incorporar o evento como parte de uma estratégia de desenvolvimento cultural a longo prazo, concebida dentro do próprio desenvolvimento da cidade como um todo, através de sinergias entre a cultura e outras áreas (desenvolvimento urbano, educação, etc.”.

O legado de Guimarães-2012 não se resume a equipamentos e estruturas, porventura os elementos de mais imediata referenciação, até pela dotação orçamental que exigem. O legado convoca também o software (e não só o hardware) gerado, experimentado e valorizado ao longo de todo o processo: a nova criação encomendada, o exercício de programação e gestão cultural em rede, o princípio da residência artística e do laboratório de curadoria em diversas áreas, as contaminações e disseminações tradicional/contemporâneo, o investimento no espaço público como metáfora da participação e da integração social e da cidade como espaço criativo multifuncional, o revigoramento do sentido de pertença e partilha do território, a ampliação e diversificação das audiências, a internacionalização da cultura portuguesa no seu duplo movimento (de fora para dentro e de dentro para fora), a introdução de novos fatores de urbanidade (percursos, narrativas, vivências pessoais e coletivas).

Os protagonistas políticos e institucionais que decidiram e desenharam Guimarães-2012 postularam uma transferência de legado robusta, cujo núcleo duro deveria residir numa fundação dotada de meios e princípios de salvaguarda de uma política pública pertinente e capacitada por uma prática relevante de contactos externos, sobretudo europeus, e de gestão de programas de financiamento com fundos comunitários.

Ao pôr em causa, de forma apressada e injustificada, a continuidade desta instituição que ele próprio criara há três anos, o Estado pode ter incorrido no risco de desacautelar a transferência prevista. As organizações locais assumem reequacionar o seu papel na transição e estão convictas de que o novo secretário de Estado da Cultura possui a experiência e a competência intelectual e política indispensáveis para poder dar um contributo crucial para esta reflexão. De fato, pela primeira vez, de há muito a esta parte, a pasta da cultura é confiada a alguém que tem um vasto currículo de exercício de funções políticas e técnicas na cultura, tanto no plano local como no central, e uma preparação comprovada no estudo e discussão das políticas culturais.

João Serra, Presidente da Fundação Cidade de Guimarães

Expresso de 10 de Novembro de 2012